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O que é um minuto?

  • Por CompletaMente
  • 06 nov., 2022

Texto por Patrícia SantosInvestigadora em Sociologia, sócia-fundadora do Atelier 3 – eu, nós e o mundo

O tempo está por todo o lado. Organizado em anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos. Está por todo o lado e estamos enganados se pensamos que não é importante para as crianças.

O meu filho veio ao mundo e eu já o fazia adaptar-se aos tempos de mamar recomendados por uma enfermeira pouco recomendável. Mais tarde, vieram as expressões quase diárias: “está na hora de irmos”, “despacha-te senão chegamos tarde”, “tens de esperar algum tempo”. O tempo na minha boca, na boca de familiares e amigos, na boca da educadora e das auxiliares, na boca dos estranhos na rua.

Um tempo controlado por relógios que ainda não sabem como funcionam, calendários que são ótimos para reconhecer os números, alarmes que são engraçados se têm som de passarinhos, agendas que servem para fazer desenhos quando estão aborrecidos num restaurante.

Um minuto” como uma resposta constante a “mãe, podes vir brincar comigo?”, “mãe, dás-me alguma coisa para comer?”, “mãe, olha aqui o que eu fiz!”. E, embora seja um conceito supostamente concreto, o meu filho de cinco anos já percebeu que um minuto raramente é um minuto. [Por vezes, já sou eu a ouvir “só um minuto” e já sei que é tempo de esperar.]

As crianças, tal como os adultos, têm um saldo diário de 24 horas por dia e, tal como a maioria dos adultos, muitas horas passadas em atividades não escolhidas livremente.

Um tempo marcado pela escola, passado em salas de aula, a fazer trabalhos de casa, a frequentar atividades escolares e extracurriculares, dentro da própria escola ou com uma lógica planificada e organizada (Mendes e colegas, 2019). De segunda a sexta-feira, em casos extremos, as crianças podem estar em atividades pensadas por adultos das 8h às 18h.


O tempo das crianças é assim, em grande parte, gerido por nós. Dependente das nossas rotinas e trabalhos (Moreira, 2010), mas também daquilo que nos parece um investimento num futuro desejável para os nossos filhos. Mesmo o tempo livre tem pouco de livre. Muitas vezes, é formal, planificado, tem uma dimensão educativa tão desejada.

Mas o tempo das crianças e de ser criança nem sempre é compatível com a nossa agenda e intenções, com este “tempo apressado” (Silva, 2011).

Precisam que os adultos esperem por elas, sem pressas, para se envolverem intensamente numa brincadeira, para se surpreenderem e, com isso, desenvolver outras aprendizagens, outras sensações, outras formas de se expressar e até de diluir tensões (Araújo & Duque, 2012).

Tal significa, antes do mais, desorganizarmos (nem que seja um pouco) o tempo das crianças. Trazer para o dia-a-dia jogos e brincadeiras espontâneos, construções demoradas, disfarces elaborados – como o vizinho mexicano que dançava todos os domingos na nossa casa quando não podíamos sair dela - aventuras inusitadas ou momentos de se aborrecer. Significa também liberdade para que as crianças possam escolher como usar o seu tempo. Ter um tempo verdadeiramente delas, usando-o para fazer o que gostam ou simplesmente nada fazer.

Em outro nível, significa que a sociedade deve abrir espaço no tempo programado, atenuando os constrangimentos que nos levam a correr com as nossas crianças de um lado para o outro, sem demoras, com ansiedade. Significa também destemporizar-me. Contrariar as minhas e as outras pressas e tarefas que vão ocupando, com intensidade crescente, os dias da minha vida. Afinal, um minuto pode ser tão longo. “Mãe, no outro dia adormeci ao ouvir o pai ler a história e passado dois minutos acordei e já era de dia”.

Talvez se dermos às crianças tempo, elas poderão, enquanto adultas, melhor gerir o tempo para si, para fazer o que gostam, para estar com os outros, para respeitarem mais o tempo dos outros. Ao contrário de muitas e muitos de nós.

Este artigo faz parte do Volume 8 da Revista CompletaMente, leia a versão online aqui.
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